29/11

“Estou, ao mesmo tempo, aliviado por estar fora do ar no momento e angustiado, porque se no ar estivesse poderia me solidarizar mais”. Publiquei isso mais cedo nas redes sociais, foi um desabafo. E sigo nesse dilema. Como eu acho que a gente escreve melhor do que fala, optei pelo post aqui no blog ao invés de uma live no face. Sim, estou falando da tragédia que ceifou quase um elenco inteiro em plena ascenção.

Praticamente virei a noite acompanhando a cobertura, ou o que os colegas conseguiram fazer à distância em plena madrugada com informações desencontradas. Estava indo dormir quando li a notícia:

“Avião que levava o time da Chapecoense faz pouso forçado na Colômbia”.

Daí virou queda, falha elétrica, falta de combustível. Falavam em 10 sobreviventes resgatados, nada de mortos. Depois, eram 5 retirados com vida dos destroços e “pelo menos” 25 mortos. Cochilei, acordei. Foi amanhecendo e o tamanho do estarrecedor evento se revelou: 75 mortos de 81 a bordo. Até o goleiro Danilo, resgatado com vida, não resistiu. De repente, o tal pouso forçado se transformou no maior desastre aéreo esportivo do mundo. Comecei a pensar nos colegas embarcados: PJ, Victorino, Mário Sérgio… e tantos outros. Caio Júnior, um lord, técnico moderno e boa praça que tanto entrevistei no “Bate-Bola”. A ficha começou a cair, as lágrimas também.

 

A cada homenagem que assistia, chorava mais um pouco. Liverpool, Zidane, Barça, Benfica. Tenistas argentinos, Bauza, Guns, Wembley e Allianz Arena vestidos de verde. Passei o dia desse jeito, grudado na TV e na internet, dando RT e trocando mensagens com os colegas tão atônitos quanto eu. Não me lembro de um dia assim, e olha que quando perdemos Senna e os Mamonas a barra foi pesada. Aí lembrei do WTC em 2001, que cheguei a cobrir daqui pela TV Cultura, mas o sumiço da Chape doía mais. Por quê?

Pelos colegas, talvez. Poderia ter sido qualquer um, afinal os times a imprensa passam as semanas  viajando de um lado pro outro. Mas não era “só” isso, o buraco era mais embaixo. Finalmente, o que era pra ser óbvio e ululante veio à tona: depois de 5 anos de ESPN, pertenço ao futebol. Foram 4 temporadas de BBs diários dividindo o espaço com os comentaristas e chamando os repórteres nos links espalhados pelo país. Aí veio o “Resenha”, mais um ano convivendo de perto com o jogadores e aprendendo os códigos de vestiário, o modus operandi da boleirada, ganhando a confiança de antigos ídolos.

Sendo parte da turma, o naipe do sofrimento começara a fazer todo sentido. A galera do avião era mais próxima do que eu imaginava, quase uma família. Definitivamente, entendi que, por mais que eu siga com a música e afins, não posso deixar o futebol. Trajano, sem saber, reacendeu a chama do garoto que colecionava PLACAR, virou amigo do Zico e foi reprovado na peneira do Fla. O dilema passou; eu não tava aliviado, e sim angustiado mesmo. Não sei quando e nem onde, mas vou voltar pra esse negócio aí. Dizem que não é só futebol, e não é mesmo. O que a gente viu nesse 29/11 vai muito além.

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#ForçaChape 

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Sobre RR TV

Apresentador de TV, idealizador e guitarrista dos Soundtrackers, e autor dos livros: As aventuras da Blitz, Almanaque da Música Pop no cinema, London London - O único guia para conhecer Londres usando o metrô e Paris Paris, que segue o mesmo conceito.
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6 respostas para 29/11

  1. Rita disse:

    Força meu lindo! Meus sinceros sentimentos.

  2. Yuri disse:

    Volta mesmo RR, vc faz falta.. Seu bom humor aliado aos seus conhecimentos, eram um alento diário no começo de cada noite, pós um dia cheio de trabalho.

  3. Tatiana de Queiroz disse:

    Nesse dia, RR, somos todos do futebol.

  4. sonia regina de oliveira rodrigues disse:

    TRADUZIU EM PALAVRAS O Q TDOS SENTIMOS.

  5. Arivan numes de souza disse:

    É de se lamentar as vidas que se foram, mas Bola pra frente, Força, fé e sucesso. Coragem para trazer alegria a nos fans do esporte, amantes do futebol e de boas historias.

  6. Douglas Pires disse:

    Que texto maravilhoso.
    Força meu amigo.
    Abração

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