Desculpa qualquer coisa

Engraçado, lá se vão quase 13 anos e eu lembro desse dia com detalhes. Até a roupa que eu estava usando. Era uma quinta-feira, sei disso por a CPL – padaria do bairro – serve lasanha às quintas desde sempre. Devia por volta das duas da tarde quando meu Nokia tocou. Ou era Ericsson, disso não lembro bem. Era da redação do saudoso Vitrine, Sula na linha:

– Rô, você pode entrevistar a Tônia Carrero mais tarde? Sabrina teve um imprevisto… vai ser no Hotel Jaraguá, ali na Augusta. Rola?

tonia

Confesso: nessa situação, às vezes eu dava um migué. Mas a Sula é a melhor produtora que eu já vi na vida, sabe até quando o repórter está mentindo; a grega – hoje no Metrópolis – é um fenômeno. Mas naquele dia eu topei na hora, engoli a lasanha e corri pra casa me arrumar. Pô, entrevistar a Tônia seria uma honra, em cartaz de novo no teatro do próprio hotel depois de tanto. Pedi pra mandarem a pesquisa por e-mail pra eu ir pensando na pauta, já que a Cultura tem um departamento de pesquisa de texto de fazer inveja à BBC.

Fui direto de casa, encontrei a equipe na locação. Tônia desceu, linda como sempre aos 82 anos, iluminada. Escolheu o set e começamos a rodar. Lá pelas tantas o cinegrafista, não lembro se era o Eliseu, baixou a câmera e começou a gravar de baixo pra cima. Na mesma hora, a diva segurou na lente e levantou o equipamento, dando aula:

– Filmar assim, de baixo para cima, jamais. Câmera baixa engorda a gente, tem que ficar pelo menos na altura do rosto e, de preferência, mais distante.

Tudo com muita classe e bom-humor, tirando um sarro da situação. O papo seguiu por mais meia-hora, 40 minutos. Falamos da peça em questão, da carreira em TV, dos tempos de cinema na Vera Cruz, tudo. Corta, temos. Ela agradeceu, nós mais ainda e, enquanto a equipe guardava as tralhas, fui levar a entrevistada ao elevador por educação e consideração. Agradeci mais uma vez e disse:

– Tônia, muito obrigado pela entrevista. Desculpa qualquer coisa.

Ela, que se preparava pra subir, segurou a porta e me disse como uma avó carinhosa que ensina o neto a se comportar direito:

– Menino, nunca peça desculpas por qualquer coisa. Isso é falsa humildade. Se você acha que fez alguma coisa, peça desculpas pelo que fez. Melhor assim. Ah, e você devia ser ator.

Uau. Eu nunca tinha pensado naquilo. Não sobre ser ator, e sim na tal “desculpa” preguiçosa. Ela estava coberta de razão. Não peço desculpas por “qualquer coisa” há 13 anos, aprendi a lição. E sempre que ouço alguém dizer isso perto de mim, conto a história da Tônia. Até hoje não sei qual imprevisto a minha amiga Parlatore teve naquele dia. Só sei que sem querer ela me deu esse presente, entrevistar a Tônia Carrero, uma das maiores atrizes que o Brasil já viu. Diva eterna.

Sabrina, querida, desculpa qualquer coisa. Ops, falei. 😉

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Sobre RR TV

Apresentador de TV, idealizador e guitarrista dos Soundtrackers, e autor dos livros: As aventuras da Blitz, Almanaque da Música Pop no cinema, London London - O único guia para conhecer Londres usando o metrô e Paris Paris, que segue o mesmo conceito.
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Uma resposta para Desculpa qualquer coisa

  1. Sonia disse:

    Maravilhoso!!!! Diva mesmo! Que depoimento tocante

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