Quebrada à francesa

No guia de Paris pelo metrô que lancei em 2016 e você ainda encontra por aí, escrevi o seguinte no capítulo da estação St Denis – Porte de Paris:

Saint-Denis é um subúrbio ao norte de Paris, a quase dez quilômetros do centro da capital francesa. Se não fosse pelo estádio nacional, construído para a Copa do Mundo de 1998, a região não seria nada turística. Quase 40% da população do bairro é de imigrantes e a taxa de criminalidade é maior do que o governo gostaria de admitir. Mas a chegada do Stade de France e do comércio que se instalou no entorno tornou o lugar mais seguro.

Cópia de RR PARIS 01

 

No caminho dá pra perceber claramente a diferença da cidade luz pra uma outra cidade que fica na penumbra, não aparece nos cartões postais. Muda a paisagem, a arquitetura; somem os turistas e entram em cena os imigrantes ou franceses de origem estrangeira, principalmente de países como Argélia, Marrocos e Tunísia. Saem os prédios cuidadosamente idealizados pelo Barão Haussmann e entram os condomínios encaixotados, as charmosas boulangeries dão lugar aos hipermercados. Não parece Paris, mas é. E justamente dessa “quebrada francesa” saem muitos dos craques que defendem os bleus.

Kanté, por exemplo, deu os primeiros chutes no Suresnes, clube amador da cidade de mesmo nome nos arredores da capital francesa. De lá foi para Boulogne, Caen e o resto é história. Pogba, craque do United, vem de Lagny-sur-Marne, comuna de 21 mil habitantes no interior de Paris onde a chapa também esquenta. Mbappé é de Bondy, distrito com 50 mil habitantes a 12 km de Paris, lá condições de vida são igualmente precárias. Umtiti é camaronês, mas nem uma conversa com o ídolo Roger Milla impediu que o zagueiro se naturalizasse francês e fosse jogar na base do Olympique Lyonnais, depois de passar pelo Ménival, nas redondezas de Lyon.

netflix les bleus

O documentário Les Bleus – Une autre histoire de France, mostra bem como a miscigenação ajudou a seleção a mudar de patamar no futebol mundial entre 1996-2016. Tá lá no Netflix, recomendo. O time atual pode não levantar a taça como o de 98, mas deixa claro que os tempos de “preto-branco-árabe” ficaram para trás, ao menos em campo. “Esporte é política”, diz Thuram nas cenas iniciais. “É mais que futebol”, emenda o questionado Domenech na sequência.

IMG_2365.JPG

E você, quando for a Paris, trate de se aventurar pela linha 13 do metrô. Eu sei que o Stade de France não traz boas lembranças, mas a Basílica de Saint-Denis é linda. Fora que sair do turismo convencional e conhecer o lado B das cidades é sempre interessante, allez!

Anúncios

Sobre RR TV

Apresentador de TV, idealizador e guitarrista dos Soundtrackers, e autor dos livros: As aventuras da Blitz, Almanaque da Música Pop no cinema, London London - O único guia para conhecer Londres usando o metrô e Paris Paris, que segue o mesmo conceito.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s